2º Capítulo – As lágrimas da minha mãe e a fuga de casa

O que provocou a minha fuga de casa foram três suspensões, seguidas, que tive na escola onde estudava. Na minha segunda suspensão, a minha mãe, furiosa, mas aparentando calma dirigiu-se até a escola para falar com o Diretor. Ao retornar para casa, as lágrimas rolaram no seu rosto. Doeram em mim as lágrimas de minha mãe. Depois, mais calma, e com a lucidez de sempre ela disse, em alto e bom som: – Esta foi à última vez que venho aqui na tua escola sofrer uma advertência por tua causa. A última vez, enfatizou. Aquelas lágrimas mexeram comigo. Quando a gente tem a consciência do que é uma lágrima de mãe, a gente morre um pouco por dentro. Um pouco de vergonha, um pouco de arrependimento. Prometi, para mim mesmo, nunca mais magoar a minha mãe. Tudo ia bem. Eu, até, já estava mais comportado. Porém, um dia, houve uma mudança de horário na escola. Decidiram que todas as segundas-feiras o início das aulas seria antecipado, passando das 19h15 para as 18h30. Logo no primeiro dia de horário antecipado eu cheguei atrasado à escola. Era impossível chegar no horário, já que a condução que me trazia de volta do trabalho só chegava em Selbach, às 18h20. Até tomar banho e jantar, fatalmente, chegaria atrasado à sala de aula. Chegando à escola, eu fui encaminhado até a sala do diretor da escola, o Padre Cláudio. Ele não acreditou na minha versão e me suspendeu por mais três dias. Era semana de provas e eu não poderia faltar às aulas. Mais uma vez eu estava suspenso. Mas, desta vez, a bagunça não foi minha. Como explicar isso lá em casa? Sentei no banco da praça pensando nas lágrimas da minha mãe e, como ela, eu também chorei. Passei horas sentado ali. Chorei muito. Custei a me acalmar. Quando a calma veio, trouxe com ela uma sugestão: fugir de casa. Por medo de ser mal interpretado, por medo de magoar a minha mãe, pela vergonha da terceira suspensão, decidi fugir de casa. Comecei a buscar os caminhos para executar a minha dolorosa decisão. Uma longa caminhada começa pelo primeiro passo. Preparei tudo o que julgava necessário para fugir. Parece que o tempo havia parado durante aquela semana, aumentando a minha ansiedade. Aos poucos uma enorme tristeza tomou conta do meu coração. Na mala velha do meu velho pai eu levaria os meus pertences. Na noite da partida, após o jantar, eu saí para visitar alguns amigos e só retornei à meia-noite, para pegar a minha mala. Entrei em casa cumprindo o ritual de todos os dias. Sempre quando eu chegava da escola, a minha mãe acordava. Bastava um simples toque no trinco da porta para que ela despertasse. Naquela noite, porém, eu tropecei nas cadeiras, caí com a mala, fiz uma barulheira daquelas e a minha mãe não acordou. Naquele momento compreendi que o meu destino já estava desenhado. Aos que fogem não é permitido conselhos, nem despedidas. Embarquei no ônibus tendo apenas o meu destino como parceiro. Olhei pela janela a cidade que me viu crescer. Imaginei as lágrimas da minha mãe. Pensei em coisas, nas quais deveria ter pensado antes. Cheguei na Rodoviária de Porto Alegre com uma mala na mão, muita determinação e muita esperança no coração. Era o dia 20 de Outubro de 1972. Tomei um táxi em direção à Pensão da Avenida Independência. Ao chegar à pensão, fui recebido por dois amigos de infância. o Nery e o Fritz. O Fritz foi o primeiro a me ajudar, conseguindo uma vaga para eu morar lá. No dia seguinte saí bem cedinho à procura de emprego. A sorte estava ao meu lado. Logo na primeira tentativa consegui o tão sonhado e necessário trabalho, na Livraria Tio Patinhas. Hoje, já se passaram tantos anos deste fato que me ocorreu uma pergunta silenciosa:- Por que não aconteceu o que eu temia ao chegar em porto Alegre? “Não conseguir um emprego e um lugar para morar?” Nunca mais esqueci o comentário do Frederico com relação a postergação do pagamento do aluguel da Pensão. Disse ele:- “A Dona da Pensão não faz concessão pra ninguém, mas fez com você, sem te conhecer. E completou: “Bem estranho.” Já tenho a resposta para minha pergunta silenciosa:- “Deus sempre protege quem acredita nele, principalmente os andantes como eu, colocando as pessoas certas para nos auxiliar, quando as coisas parecem não andar”. Hoje, analisando com calma aquela situação, tenho certeza que Deus iluminou a Dona da Pensão naquele 20 de outubro de 1972. Este texto na integra está no livro Aventuras de um desconhecido. No próximo capítulo abordarei o assunto como vencer a ideia do suicídio através da escrita.

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